Monitoramento Populacional e Conservação de uma Comunidade de Primatas na Mata Atlântica no Brasil
Este relatório consolida os resultados de dois projetos consecutivos dedicados ao monitoramento e conservação da comunidade de primatas na Reserva Particular do Patrimônio Natural Feliciano Miguel Abdala (RPPN-FMA), em Caratinga, Minas Gerais. Os projetos combinaram métodos tradicionais de monitoramento com tecnologias inovadoras como drones com câmeras térmicas e armadilhas fotográficas arbóreas para expandir nosso conhecimento sobre bugios-ruivos, saguis-da-serra-escuros e macacos-prego-de-crista.
Os projetos visaram aprofundar o conhecimento sobre tamanho de grupos, estrutura e densidade populacional das três espécies de primatas, enquanto testavam a eficácia de tecnologias não-invasivas para melhorar o monitoramento. A quarta espécie, o muriqui-do-norte, é monitorada intensivamente pela equipe do Projeto Muriqui de Caratinga de longo prazo desde 1983.
Os resultados consolidados demonstram que populações de primatas podem se recuperar de eventos catastróficos como surtos de febre amarela quando habitats adequados são mantidos e monitoramento científico rigoroso é implementado. A integração sucessiva de tecnologias oferece modelo replicável para conservação de primatas neotropicais.
Realizamos seis expedições totalizando 81 dias de campo com métodos convencionais de monitoramento. Conduzimos 14 censos caminhando 44,2 km e incluímos um programa de estágio internacional com estudante francês para habituação de saguis.
Expandimos para 125 dias de campo integrando tecnologias não-invasivas. Realizamos 149 voos de drone e posicionamos seis armadilhas fotográficas arbóreas no dossel das árvores, complementando 7 censos adicionais percorrendo 21,8 km.
Monitoramento com Drones: Dos 149 voos realizados, 72 (48%) basearam-se em informações prévias e 77 (52%) foram voos exploratórios. Muriquis foram detectados em 42 voos, macacos-prego em 11 e bugios-ruivos em 9 voos.
Obtivemos 34 registros de macacos-prego, 37 de muriquis, 4 de bugios-ruivos e 1 de sagui-da-serra-escuro, além de outras espécies arbóreas.
Fase 1 (2022-2023): Relocalizamos 11 dos 13 grupos conhecidos, totalizando 62 indivíduos com estrutura de 33 adultos, 22 imaturos e 6 filhotes. Tamanho médio dos grupos: 5,16 ± 2,24 indivíduos.
Fase 2 (2023-2024): Identificamos 25 grupos através de 79 registros, monitorando 16 sistematicamente. Total de 69 indivíduos nos grupos principais com 43 adultos, 17 imaturos e 6 filhotes. Tamanho médio dos grupos: 4,31 ± 1,40 indivíduos.
A população mostra sinais de estabilidade com evidências de recuperação pós-febre amarela, embora o tamanho médio dos grupos tenha diminuído ligeiramente entre os períodos.
Progresso Significativo: A população aumentou de 17 para 32 indivíduos entre 2022-2023, representando recuperação notável após o surto de febre amarela. Na segunda fase, relocalizamos grupos conhecidos e registramos possível novo grupo.
Dados de Área de Vida:
Sinais de Reprodução: Observamos reprodução em múltiplos grupos pela primeira vez desde o surto de febre amarela, indicando resiliência populacional excepcional.
Fase 1: Identificamos pelo menos 6 grupos/subgrupos com 44 indivíduos (22 adultos, 17 imaturos). Tamanho médio: 7,33 ± 3,27 indivíduos.
Fase 2: Registramos pelo menos 6 grupos variando de 6-12 indivíduos através de 56 observações. População mantém proporção sexual favorável às fêmeas e sinais recentes de reprodução.
A população demonstra estabilidade consistente com condições favoráveis para sobrevivência a longo prazo.
Métodos Tradicionais: Eficazes para dados demográficos detalhados e habituação, mas limitados por tempo e área de cobertura.
Tecnologias Não-Invasivas: Drones mostraram-se particularmente úteis para localização de grupos perdidos e cobertura de áreas extensas. Armadilhas fotográficas forneceram dados contínuos com mínima interferência humana.
Detecções de drone são mais efetivas em manhãs frias e dias nublados. Bugios-ruivos são mais difíceis de detectar quando agrupados no sub-bosque. Vegetação densa reduz significativamente a eficácia de ambas as tecnologias.
Chuvas intensas (dezembro 2022 – fevereiro 2023) bloquearam trilhas com vegetação densa e árvores caídas, limitando censos tradicionais. Adaptamos estratégias priorizando tecnologias remotas durante condições adversas.
O baixo número de avistamentos de bugios e saguis reflete menor densidade pós-febre amarela. Estimativas de densidade requerem análise cautelosa devido ao tamanho amostral limitado.
O estágio de Hugo Leroy (França) contribuiu significativamente para: - Pré-habituação do Grupo IV de saguis; - Dados detalhados de área de vida de dois grupos; - Fortalecimento de colaborações internacionais; - Transferência de conhecimento em técnicas de campo.
Bugios-ruivos: Evidências claras de recuperação com aumento no tamanho dos grupos e reprodução ativa.
Saguis-da-serra-escuros: Recuperação excepcional com quase duplicação da população e retorno da atividade reprodutiva.
Macacos-prego-de-crista: População estável e saudável com reprodução consistente.
Fatores de Sucesso
– Proteção efetiva do habitat na RPPN-FMA
– Monitoramento contínuo permitindo intervenções oportunas
– Integração de tecnologias aumentando eficiência de coleta de dados
– Colaborações internacionais fortalecendo capacidade científica

O monitoramento de longo prazo confirma a eficácia da proteção de fragmentos florestais bem conservados para recuperação de populações de primatas ameaçados. A combinação de métodos tradicionais com tecnologias inovadoras oferece abordagem robusta para conservação.
Este trabalho representa compromisso de longo prazo para garantir futuro sustentável para espécies emblemáticas da Mata Atlântica. A colaboração contínua entre instituições nacionais e internacionais é fundamental para enfrentar desafios emergentes na conservação de primatas ameaçados.